Tabagismo é doença

Para enfrentar o problema, hospitais oferecem tratamento especializado aos fumantes.

Rachel Campello
Colaboração para a Folha

O ato de fumar teve três fases distintas. Na primeira, ele foi visto como um comportamento de adolescente rebelde. Estar com o cigarro na mão era uma afirmação, um rito de passagem para a vida adulta. Depois, passou a ser encarado como ignorância. Quem fumava era tido como pouco inteligente, afinal, as evidências contra o cigarro já estavam ao alcance de todos. Hoje, o vício pela nicotina é considerado uma doença crônica. E, como em todas as doenças, quanto mais cedo começar o tratamento, maiores são as possibilidades de cura.

Largar esse hábito ruim, no entanto, está longe de ser fácil. Pesquisas recentes mostram que quase 90% dos fumantes desejam parar. Daqueles que encaram o desafio, mais da metade tem recaída em menos de um ano. Menos de 10% conseguem se livrar do vício sem ajuda médica. E a abstinência, além de causar um grande desconforto físico, assemelha-se ao luto e pode desencadear depressão. Também foi descoberto que algumas pessoas se viciam com mais facilidade, por propensão genética.

Quase 90% dos fumantes desejam parar, mas menos de 10% conseguem se livrar do vício sem ajuda médica

Diante dos fatos acima, os especialistas em saúde perceberam que apenas conselhos e ajuda psicológica não seriam o suficiente. Para abandonar a dependência química, os fumantes precisariam de tratamento farmacológico, com acompanhamento médico, e visitas periódicas para avaliar o andamento do processo. Hoje, vários hospitais públicos e privados oferecem esses serviços com altos índices de sucesso. No Programa de Tratamento do Tabagismo, no Instituto do Coração (Incor), de São Paulo, por onde passam cerca de 20 pacientes por mês, 50% deles chegam ao fim do primeiro ano sem o cigarro. A primeira consulta custa R$ 300 e as seguintes, R$ 150. No Centro de Tratamento de Tabagismo, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, que atende uma média de cem pessoas por ano, 80% delas param no primeiro mês. O primeiro ciclo do tratamento, com duração de três semanas, custa R$ 600 e cada consulta de retorno, R$ 60. A maioria dos hospitais faz o trabalho em grupos de até 20 pessoas. Assim, há uma troca de experiências e de estímulos. Já no hospital Albert Einstein, no Programa Álcool e Drogas, todos os encontros são individuais. O formato pode variar, mas os serviços seguem basicamente o mesmo método, baseado em suporte psicológico e farmacológico. As evidências mostram que a ajuda química pode ser muito eficiente na hora de largar o cigarro.

Para os não-fumantes, abandonar o vício pode parecer simples. Mas imagine largar um hábito repetido mais de 20 vezes ao dia durante anos! Com o objetivo de tornar o processo menos doloroso e evitar uma recaída, os especialistas recomendam um plano de ação.

"Parar de fumar desmonta todo o equilíbrio emocional de uma pessoa. E isso é muito assustador", explica o pneumologista Ciro Kirchenchtejn, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz. Os centros para combater o fumo aconselham a seguinte estratégia: estabeleça uma data, comunique aos amigos, familiares e colegas de trabalho sobre sua decisão, planeje-se para superar os desafios, elimine cigarros, isqueiros e cinzeiros de sua casa e saiba o que há disponível para ajudá-lo.

Tratamento
Combater o vício exige um empenho em duas frentes. Primeiro, é fundamental driblar a dependência química. Ao parar de fumar, o organismo sofre os efeitos da abstinência, que duram cerca de seis semanas -é nesse período que muitas pessoas desistem.

Os sintomas são irritabilidade, aumento de apetite, alterações no sono, cefaléia, constipação e falta de concentração. Para amenizá-los, há alguns métodos cientificamente comprovados. A reposição de nicotina, feita com gomas de mascar ou adesivos, alivia o desconforto físico e diminui a ânsia pela substância.

O uso da bupropiona (antidepressivo) também tem se mostrado eficaz no início do tratamento e mais adiante, quando as recaídas são freqüentes.

Aplacar a dependência psicológica é, por unanimidade, a fase mais complicada. E mais longa também. A lembrança do cigarro fica registrada para sempre no cérebro, e a vontade é facilmente despertada. Após anos de vício, muitos comportamentos ficam associados a ele. Por exemplo, se a pessoa sempre fuma quando está dirigindo, ela pensará no cigarro ao entrar no carro. É aqui que o acompanhamento psicológico entra em ação -a idéia é ajudar o fumante a identificar esses hábitos e modificá-los com o menor sofrimento possível. "O apoio é importante para minimizar a dor, motivar o paciente, driblar o ganho de peso e prevenir recaídas", explica a cardiologista Jaqueline Issa, diretora do Programa de Tratamento do Tabagismo, do Incor. Ela ressalta, porém, que a motivação pessoal é o fator decisivo para o sucesso do tratamento.

Os primeiros três meses sem o cigarro são os mais propícios para uma recaída. É nesse período que as pessoas abandonam o projeto. Mas, nos meses seguintes, o índice também é alto. É comum o ex-fumante se considerar curado, no controle da situação, e baixar a guarda. Aos poucos, ele acaba retomando o vício. Portanto, a recomendação é manter distância por um tempo até de quem fuma. (Há mais não-fumantes que fumantes no mundo!). De acordo com o psiquiatra Sergio Nicastri, coordenador do Programa Álcool e Drogas, do hospital Albert Einstein, é preciso ser drástico: "não dê nem uma tragada!". Mas, caso isso aconteça, a causa não está perdida. O importante é identificar o que desencadeou a vontade e evitá-la no futuro. Um estímulo: muitos ex-fumantes tentaram parar mais de uma vez antes de conseguir.

O Vício
Há vários tipos de fumantes. Alguns preci- sam do cigarro para reduzir o estresse. Outros o associam a prazer e fumam após as refeições, as relações sexuais e quando bebem. Há aqueles que consomem um maço inteiro na hora de se concentrar no trabalho. Para cada pessoa, a vontade de fumar é acionada de uma forma. Mas todas elas têm uma coisa em comum: o vício em nicotina. E é ele que torna o ato de fumar compulsivo. Alguns estudos mostram que a substância é tão poderosa que seu efeito chega a ser semelhante ao da heroína e da cocaína. A sensação de prazer e euforia, no entanto, é muito breve. Em apenas 30 minutos, o organismo elimina a nicotina do sangue, o que dá espaço para o desânimo, a irritabilidade, a fadiga e, obviamente, a ânsia de fumar novamente. Para obter o mesmo efeito, o usuário vai necessitar de cada vez mais cigarros. Este é o ciclo da dependência. Mas há outros fatores que levam ao vício. O histórico familiar é um dos mais importantes. Quase 90% dos fumantes começaram o hábito na adolescência. Ou seja, a forma como os pais lidam com o fumo pode influenciar o comportamento dos filhos. A genética também tem papel decisivo nesse cenário. Algumas pessoas metabolizam a nicotina muito rapidamente e acabam fumando mais, enquanto outras ficam saciadas por mais tempo.

Fonte
Folha de São Paulo
28/07/2005