Som e Significado

Parte do capítulo “Som e Significado” do livro “The Actor and the Text” é aqui abaixo transcrito de maneira adaptada para que você, ator, aproveite do que ensina Cecily Berry, importante figura da preparação vocal da Royal Shakespeare Company. Observe como a autora brilhantemente escreve sobre a interface entre voz e texto.

Idealmente o ator quer que sua voz carregue o que está em sua mente e imaginação diretamente ao público. Quer ser preciso em sua intenção e soar sem esforço. Quer carregar o ouvinte até o fim do espetáculo e ter a sua voz como o corpo que faz tal ligação. Sabe que o público quer ser levado pelo personagem e que a voz e fala são instrumentos para tal. Acima de tudo, quer ser interessante.

Entretanto, quanto mais verdadeiro quer ser, mais quer encher o texto; o mais difícil é ser simples e liberar as palavras diretamente e sem pressão. Dependendo do ator, essa tensão entre ele e o texto pode fazê-lo super-explicar, ser exageradamente enfático ou sobrecarregar sua fala com emoção.

O problema é que tendemos a trabalhar a voz como um fim em si mesmo e de alguma maneira não vemos que podemos trabalhar através dela.

Devemos também trabalhar a linguagem como o fazemos com a voz. Temos que praticá-la no sentido de nos tornarmos mais adeptos ao sentimento do quanto ela pesa e se movimenta. O ator precisa estar pronto a buscar pelas ressonâncias do personagem através das palavras dadas no script. Precisa tocar o personagem através da linguagem. Precisamos permitir que ele tenha nossa experiência de maneira que seja real para nós, e isso pede por uma contínua mistura da nossa verdade com a do personagem. Além disso, precisamos reavaliar constantemente nossas atitudes quanto à linguagem – nunca tê-la como pronta.

A) As atitudes quanto à voz:

Seguem fatores muito comuns que nos atrapalham na tentativa de tornar nosso texto o mais rico e vivo: algumas atitudes e formas de trabalho que tiram nossa atenção do foco verbal necessário.

A confiança que colocamos no nosso próprio som:

O ponto importante é que nós somos mais conscientes quanto ao nosso som do que pensamos e isso é fortemente ligado ao nosso estado emocional e a nossa auto-estima. Devido ao fato de ouvirmos nosso som através da condução óssea, e também porque nos ouvimos subjetivamente, presos a nossa percepção do como gostaríamos de soar e como nos sentimos a respeito disso, raramente nos ouvimos apuradamente.

O ator tem que treinar sua voz e conhecê-la objetivamente. Mais ainda: a voz é parte dos seus significados próprios e assunto de sua confidência. O como ele usa sua voz em seu trabalho está ligado ao como ele se sente a respeito de seu trabalho e ao quanto ele é confiante. Certamente, quando não achamos fácil determinada parte do trabalho, torna-se difícil achar a voz autêntica. Por conseqüência, tendemos a nos fixar em sons que parecem mais familiares e nos quais temos confiança.

Assim, o ator precisa descobrir e experimentar sentimentos enquanto fala e saber quais os efeitos que sua voz está causando. Algumas mudanças soam maiores internamente do que ao ouvinte.

A confiança em nossa voz dá às palavras importância secundária. E isso ocorre porque ouvimos mais fortemente o som do que nossas próprias palavras. Mas o ponto crucial é: freqüentemente fugimos de nossa intenção, carregando o som com significado e isso sobrepõe e domina as palavras. Uma voz com inflexão muito cheia de significados faz com que o ouvinte não note as palavras. Como ouvinte não estou interessado no argumento e portanto não estou completamente envolvido. Tanto poderíamos dizer que o ator não está encontrando a correta pressão para as consoantes, que o ouvinte não está dando importância às palavras ou que o ator não está pensando o suficiente e ressaltando as frases corretamente. Na verdade, a resposta está no fato de não se ter o foco correto – o correto equilíbrio entre as palavras e o som.

Como o ator trabalha:

Cada ator tem seu próprio meio de trabalho e, portanto, a forma de procurar pela razão das palavras que tem que falar, a relação da sua experiência com a motivação do personagem. Isso varia com o tipo de texto, e ao responder à questão “o porquê dessas palavras”, podemos considerá-lo pronto para a performance. Mas, freqüentemente ele mantém as razões em mente sem conseguir distribuir a energia do pensamento nas palavras. As palavras passam a ser menos importantes do que o pensamento, ao invés de serem o pensamento em ação. O ator permanece atrás das palavras e não nelas. O importante é a energia do pensamento coincidir com a das palavras.

As palavras precisam ser a libertação da vida interior, e não uma explicação dela ou um comentário sobre ela, caso contrário começamos a apresentar a razão da linguagem e não a descoberta do pensamento.

Colocando de outra maneira: na nossa preocupação de darmos o motivo certo, pensamos no pensamento um pouco antes de o dizermos. O resultado disso é a fala passiva; apresentamos o resultado do pensamento e não o pensamento em si. Isso não nos leva a lugar algum. Precisamos da coragem para viver o momento da fala.

B) Atitudes quanto às palavras:

Nós tendemos a pensar nas palavras como originadas de algum lugar acima do pescoço. Nos mostramos sem consciência de suas características físicas, pensando nelas em termos de expressão de razões e idéias e no colorir com sentimentos, e não em termos de nosso ser físico expresso através delas e nelas envolvido.

As palavras são instrumentos de mudanças internas. Mas, na ansiedade de preenchermos o texto com nosso significado, freqüentemente nos vemos envoltos com o que estamos dizendo para nós mesmos e não no como estamos dizendo. Nós super-atuamos com nossos sentimentos e responsabilidade, de maneira que não deixamos as palavras fluírem, não as deixamos livres para mudar uma situação e provocar uma resposta.

Temos que lembrar também do teatro como uma força política no contexto de vida onde vivemos.

As palavras emergem de muitas camadas da consciência: do ordinário lidar com a nossa vida diária até as expressões mais profundas do sentimento. Temos que ficar prontos para tais mudanças.

Fonte
BERRY, C. Sound and Meaning in The Actor and the Text.
2° ed. Applause Theatre Books, NY. 1992: 14-20.
Traduzido e adaptado por Viviane Barrichelo