Por que a voz não funciona

Ao ter contato com a obra da Linklater, com sua maneira descontraída de escrever sobre a voz, tive o desejo de traduzir parte de seu material e de levar ao conhecimento dos meus alunos de Artes Cênicas e Música. Na verdade, acredito que o que ela escreve é útil para qualquer profissional da voz ou comunicador. Ela procura inter-relacionar muitos dos aspectos que impedem que a voz funcione livremente. Parte de um capítulo chega, então, de maneira adaptada ao site do Vocalis para que você, internauta, possa apreciar o que escreve essa autora americana.

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Se os músculos da respiração falham em fornecer o combustível de ar às pregas vocais, mas a necessidade de produzir a voz para algum propósito permanece, então um pequeno fio de ar é encontrado (apenas para ativar a vibração), enquanto os outros músculos da garganta, mandíbula, lábios e língua trabalham duas vezes mais para compensar a falta do ar. O tom resultante é fino e a mensagem carregada não é clara. A voz não pode trabalhar se sua energia básica não for o ar. Enquanto a respiração não for livre, a voz será dependente das compensações realizadas pelos músculos da garganta e boca. Quando esses músculos tentam conduzir sentimentos fortes, tais resultados podem ocorrer: eles encontram um modo sadio e musical para descrever tal emoção; dirigem o som em monotom; ou se contraem, tencionam, empurram e apertam tão fortemente que causam atrito entre as pregas vocais. Dessa maneira, as pregas vocais tornam-se inflamadas, perdem elasticidade, são incapazes de produzir vibrações regulares e, finalmente, lesões são criadas conforme as pregas vibram sem a lubrificação do ar.

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Citando o aspecto de ressonância, se a garganta é tencionada com esforço, ela constringe o canal por onde o som viaja. Muito comumente, essa constrição impede que as vibrações do som trafeguem livremente até as caixas de ressonância mais superiores, restringindo a amplificação dos ressoadores médios e superiores. Isto pode resultar num leve, agudo e estridente tom. Ao mesmo tempo, tensão na garganta, juntamente com a inconsciente necessidade de produzir um som sob controle, pode fazer com que o som só ressoe nas cavidades inferiores e um rico e profundo monotom, que não encontra suavidade, seja criado. Se o palato mole e a parte posterior da língua se juntarem ao batalhão na substituição da respiração, acabam dirigindo o som para o nariz ao invés de permitirem a livre passagem pela boca. O nariz é poderoso, dominador e nada sutil como ressoador. Se a voz concentra-se no nariz, facilmente ela é ouvida, mas o que se ouve pode se mostrar difícil de ser entendido. As nuances são queimadas e a variabilidade do pensamento pode não encontrar livre espaço na variedade de qualidades ressonantais. O conteúdo é distorcido por apenas uma forma de ressonância disponível.

O passo final da produção da voz está na articulação – lábios e língua. O que é certo é que até que a língua possa relaxar enquanto um som básico é formado, ela não pode desenvolver sua função natural que é a modelagem do som. A língua é ligada à laringe (através do osso hióide) e a laringe comunica-se diretamente com o músculo diafragma através da traquéia. Tensão em uma das três áreas causa tensão nas outras duas. Além disso, enquanto há tensão na língua, ela articulará com mais esforço do que o necessário, e devido a isso diminuirá sua sensibilidade para responder aos impulsos motores vindo do córtex cerebral. (...)

Os lábios constituem parte do complexo facial que responde a mensagens inibitórias da mente, formando uma cortina sobre a janela da face. A liberdade do lábio superior é essencial para a articulação viva. A responsabilidade pela articulação deve ser igualmente dividida entre os lábios superior e inferior. Se o superior é rígido, o inferior realizará 85% do trabalho e provavelmente recrute a mandíbula como suporte extra. A mandíbula é mais pesada se comparada aos lábios, e a articulação não pode ser econômica em tais situações. (...)

Fonte
LINKLATER, K. Why the voice does not work in Freeing the Natural Voice.
Drama Book Specialists, NY.
Traduzido e adaptado por Viviane Barrichelo